segunda-feira, agosto 06, 2007



Ontem à tarde meu vô morreu. Assim, na minha frente, numa cama de hospital. Nunca achei que fosse presenciar algo assim. Vi seu último suspiro e não pude fazer nada. Ninguém pode. Por isso, queria escrever algo bonito para ele agora, uma poesia, uma homenagem, mas não consigo. Pensar tornou-se algo difícil. Queria agradecê-lo por tanta coisa, pelo canivete com cabo de madeira, pela primeira (e única) camisa de futebol, por me ensinar a derrubar caqui, pela serenidade e presença de espírito. Mas essas coisas a gente tem que fazer em vida. Agora é tarde. Adeus, vô Neves, até um dia.
Route 66 Like Jesus 33



Todo bundão devia ter o direito de dar uma de (ou na) Carla Perez. Eis aqui, então, eu, no meu momento de burra pretensão. E tal qual o filho dEle, o pai dEla - a minha filha de onze anos - vos digo: aos trinta e três, eu ressuscitei. Sim, com a idade de Cristo quando morreu, sinto pagos meus pecados e agora cresço e apareço e estabeleço, para mim, um recomeço, anunciando a boa nova (pessoa) ao mundo feito um anjo, Gabriel, o pecador, com o diabo no corpo já não mais tão feio, sujo e malvado ou na alma penada e lavada. Assim sendo, este que vos fala aproveita o mês do cachorro louco e usa umas quinze linhas de fama para dizer sem desgosto que está são e salvo, vazio como um copo d'água com gelo e cheio de vida e amor para dar e vender a quem quiser pagar para ver. Hoje, em agosto, por exemplo, eu já não tenho mais aquilo roxo de quinze anos e nos trinta me viro para mudar de cor, marrom, um dia preto, pronto para o caminho e seu novo início. Também, por sorte ou azar, sei lá, me vejo com treze anos de profissão e peso(s) nas costas, cabeça(s), tronco e membros, exibindo calos nas mãos e nós nos dedos, sem nariz para cima ou tampouco os pés - estes indo para frente, sem (o) olhar para trás, e deixando idem aquele outro eu, que já não é mais o mesmo, graças a Deus. Desta feita, afogando em números, nadando contra a corrente e a favor das palavras que não me atingem nem quebram meus ossos feito pedras e paus, nesta longa estrada da vida eu vou correndo e não posso parar, pois quem fica parado é poste - e poste, você sabe, não é cousa de homem, e sim de mulher grávida e bambu. E bambu, você também sabe, já viu, né?